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  • Silvana Tavano

Desde cedo e desde sempre

Atualizado: 18 de abr.

Quando me perguntam: “como incentivar uma criança a gostar de ler?”, penso numa cena que todo mundo já viu, pai e filho batendo bola na praia, numa praça, no quintal de casa. Nada garante que esse menino venha a ser um jogador profissional, mas as chances de ele gostar de futebol são bem altas, variando numa escala que vai do torcedor fanático ao apreciador eventual. Por isso minha primeira resposta àquela pergunta do início é: lendo. Para elas, com elas, e também perto delas.


Nas casas onde os livros fazem parte da vida — livros que saem da estante para o criado-mudo dos pais, que circulam entre os brinquedos da criança e que abrem a porta dos sonhos com a leitura de todas as noites – o “incentivo” deixa de ser uma tarefa: nada garante que essa criança se torne um escritor ou escritora, mas ela certamente vai gostar de ler. O que rola entre pai e filho na hora dos passes e dribles é troca, diversão, intimidade e prazer, e é daí que nasce o gosto – às vezes, paixão — pelo futebol. Não é diferente do que acontece quando a mãe ou o pai passam um tempo ao lado do filho contando histórias, a leitura de um trecho a cada noite, a promessa de continuação da aventura, o fio das palavras entremeando tudo o que envolve esse momento, o livro como um portal para a troca, a diversão, a intimidade e o prazer.


Ler para os pequenos, sim, e deixar que os maiores escolham suas leituras. Quando criança, fui uma leitora voraz de Luluzinha e Bolinha, Gasparzinho e Brasinha, Zé Carioca e Professor Pardal, gibis que empilhava com orgulho de colecionadora e que, não tenho dúvida, despertaram meu gosto pela leitura. Dos quadrinhos pulei num salto olímpico para Monteiro Lobato, José Mauro de Vasconcelos, Júlio Verne, até porque, na época, por aqui não havia muitos títulos dedicados ao público infantil. Mas hoje dá para passar horas escolhendo nas prateleiras das livrarias, livros que acompanham os jovens leitores passo a passo desde a primeiríssima infância, dos livros-álbum e narrativas ilustradas aos textos que vão crescendo com o leitor, a cada etapa mais fluente na leitura e mais maduro nas escolhas. É importante que a criança escolha livremente o que quer ler, e com a mesma liberdade, abandone um livro chato. Porque não é para ser chato e não “tem que ler” — isso, sim, é uma boa forma de desincentivar a leitura.




Tem que ser gostoso, o que não quer dizer que toda leitura precise ser só entretenimento. Crianças se encantam com a musicalidade da poesia, entram com facilidade no ritmo das histórias rimadas, memorizam e se divertem muito com os contos acumulativos, mas também se conectam com histórias não tão felizes, temas às vezes ásperos que enredam tristezas que a criança sente mas nem sempre sabe traduzir para si mesma: o pato que aceita a companhia da morte, o personagem circular que persegue a parte que falta, João e Maria abandonados na floresta. Identificar-se com a dor de um personagem ou apenas entrar em contato com essa dor – não é isso que tantas vezes nos leva, nós adultos, a devorar um livro? Ler é rir, chorar, se emocionar, sentir raiva, explorar, imaginar, viajar, e é experimentando tudo isso que crianças se tornam leitoras.


O maior incentivo é oferecer livros desde sempre, permitir que abandonem uma história que não agrada, e não forçar a leitura na hora em que a criança quer fazer outra coisa: não é obrigação nem tem hora certa. Lembro da escritora e pedagoga Fanny Abramovich, falando durante um evento, anos atrás:


Hábito da leitura? Hábito tem a ver com escovar os dentes. Leitura é vício, é puro prazer!.

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